JOHNNY ANTONIO DA SILVA LIMA

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE
Programa de Pós-Graduação em Diversidade Biológica e Conservação nos Trópicos

JOHNNY ANTONIO DA SILVA LIMA

CONHECIMENTO ECOLÓGICO LOCAL REVELA INFORMAÇÕES VALIOSAS
SOBRE O IMPACTO DAS MUDANÇAS GLOBAIS NOS RECURSOS PESQUEIROS
COSTEIROS

MACEIÓ, ALAGOAS
2023

JOHNNY ANTONIO DA SILVA LIMA

CONHECIMENTO ECOLÓGICO LOCAL REVELA INFORMAÇÕES VALIOSAS
SOBRE O IMPACTO DAS MUDANÇAS GLOBAIS NOS RECURSOS PESQUEIROS
COSTEIROS

Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Diversidade Biológica e
Conservação nos Trópicos, Instituto de Ciências
Biológicas e da Saúde. Universidade Federal de
Alagoas, como requisito para obtenção do título
de Mestre em CIÊNCIAS BIOLÓGICAS, área de
concentração em Conservação da Biodiversidade
Tropical.

Orientador(a): Dr. João Vitor Campos e Silva
Coorientador: Dr. André Braga Junqueira

MACEIÓ, ALAGOAS
2023

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho aos pescadores e
pescadoras, valentes guerreiros e
guerreiras que persistem e resistem em
meio tantas mudanças que afetam seus
modos de vida.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus que me sustentou até aqui, e pelas pessoas que colocou em
meu caminho ao longo desse mestrado. Pelo aprendizado e crescimento acadêmico e
espiritual, conquistado a cada degrau nas etapas que se sucederam.
À minha família que sempre está comigo e que me apoiou ao longo desse
processo. Em especial, à minha mãe, que sempre está junto a mim, e, que nas horas
mais difíceis, sempre tinha uma frase importante a dizer: “aconteça o que acontecer,
sempre será meu filho e sempre estarei com você”.
Aos meus orientadores, pelos ensinamentos, advertências e carinho, sempre nas
horas mais certas. E, mesmo nas vezes em que pensava em desistir, o Dr. João Vitor
Campos e Silva sempre tinha algo bom a dizer-me.
Aos pescadores e pescadoras de Paripueira e Barra de Santo Antônio, meus
sinceros agradecimentos pelas boas conversas, disponibilidade de tempo em
participarem das entrevistas e, claro, pelo privilégio de ter aprendido muito com todas e
todos através de seus conhecimentos ecológicos locais e tradicionais.
À colônia de Pescadores Santo Amaro Z-21 e à Associação de Jangadeiros de
Barra de Santo Antônio (AJAMBASA), pelo apoio ao ceder seus espaços e tempo para
apoiar esta pesquisa. Em especial, ao meu amigo Adalvo Alexandre da Silva, e à minha
amiga Ana Paula. Os dois, além do apoio, foram de suma importância para a execução
dessa pesquisa. Ana Paula, em especial, meu muito obrigado por ser essa pessoa
sempre presente, nos bons e maus momentos.
Ao LACOM, em especial ao Dr. Gilmar Oliveira, que sempre esteve comigo,
passando boas leituras e ideias também. Ao professor e Dr. Vandick Batista, hoje mais
que um professor, um grande amigo, um grande incentivador para que eu fizesse um dia
o mestrado, e seguindo seus conselhos, aqui estou.
À doutoranda Izabela, companheira, amiga, e grande apoio em toda essa
jornada, sempre com muito carinho e atenção esteve comigo até aqui.

RESUMO
As mudanças globais têm causado diversas alterações nos sistemas costeiros por meio
da poluição, sobre-exploração de recursos, aumento da temperatura na atmosfera e
oceanos, além de eventos climáticos extremos. Essas mudanças atingem diversas
regiões do planeta, causando impactos profundos nos sistemas socioecológicos,
sobretudo nas comunidades humanas pesqueiras que dependem fortemente dos
recursos marinhos. Nesta pesquisa, avaliamos o impacto das mudanças ambientais em
duas comunidades costeiras de pescadores no Nordeste do Brasil, situadas na Área de
Proteção Ambiental Costa dos Corais, a maior área protegida marinha costeira do Brasil.
Com base em entrevistas semiestruturadas, investigamos a percepção de pescadores e
pescadoras a respeito das mudanças ocorridas na atividade pesqueira, identificando as
espécies mais impactadas e as causas do impacto. Os resultados indicam que os
moradores locais percebem impactos das mudanças globais nos recursos pesqueiros de
forma ampla e multidirecional em diferentes sistemas e subsistemas. Além disso,
reportam que espécies de alta importância para a subsistência e economia locais estão
com suas populações em declínio ou até mesmo extintas localmente, como é o caso dos
bivalves massunim (Tivela mactroides) e berdigão (Anomalocardia brasiliana), e dos
peixes ubarana (Albula vulpes), xaréu (Canranx hippos) garoupa (Epinephelus
marginatus) e sirigado (Mycteroperca bonaci). A percepção de declínio populacional varia
entre espécies, e está associada ao valor comercial e nível trófico. Nosso estudo
demonstra o potencial do conhecimento ecológico local para o entendimento detalhado
dos efeitos das mudanças globais em sistemas sócio-ecológicos. Essas informações
podem fornecer subsídios para a estruturação de políticas públicas e estratégias de
adaptação eficientes e adequadas ao contexto local.
Palavras-chave: Sistemas Socioecológicos; Pesca artesanal; Mudanças climáticas;
Percepções; APA Costa dos Corais.

ABSTRACT

Global changes have caused many changes in coastal systems through pollution,
resource over-exploitation, rising atmospheric and ocean temperatures, in addition to
extreme climatic events. These changes affect many region across the planet, leading to
profound impacts in socio-ecological systems, particularly in fishing communities that
depend heavily on marine resources. In this research, we evaluated the impacts of
environmental changes in two fishing communities in Northeastern Brazil, located in the
Costa dos Corais Protected Area, the largest marine protected area in Brazil. Using semistructured and structured interviews, we investigate the perception of fishermen and
women about environmental changes and about how different species are affected by
different types of environmental change. Our results show that local residents perceive
wide and multidirectional impacts of global change in fishing resources. Besides, they
report that species with high cultural and economic importance locally are declining or
nearly locally extinct, as in the case of the bivalves massunim (Tivela mactroides ) and
berdigão (Anomalocardia brasiliana) and of the fish ubarana (Albula Vulpes), xaréu
(Canranx hippos), garoupa (Epinephelus marginatus) and sirigado (Mycteroperca
bonaci). The perception of population decline varies between species, and is associated
with commercial value and trophic level. Our study demonstrates the potential of local
ecological knowledge to understand detailed effects of global change in socio-ecological
systems. This information can provide subsidies to the development of public policies and
adaptation strategies that are efficient and more suited to local contexts.
Keyword: Socioecological Systems; Artisanal fisheries; Climate changes; APA Costa dos
Corais.

SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO .................................................................................................... 03
REFERÊNCIAS......................................................................................................... 05
1.REVISÃO DA LITERATURA ................................................................................. 07
1.1. Mudanças ambientais globais e seus desdobramentos nos ecossistemas marinhos
.................................................................................................................................. 07
1.2. Pesca artesanal.................................................................................................. 09
1.3. Unidades de Conservação e Áreas Marinhas protegidas................................... 10
1.4 APA Costa dos Corais: Barra de Santo Antônio e Paripueira ............................. 11
1.5 Conhecimento ecológico local ............................................................................. 12
REFERÊNCIAS......................................................................................................... 13
ARTIGO. Conhecimento ecológico local revela informações valiosas sobre o impacto das
mudanças globais nos recursos pesqueiros costeiros .............................................. 17
RESUMO................................................................................................................... 17
INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 18
1.MATERIAS E MÉTODOS ...................................................................................... 21
ÁREA DE ESTUDO ................................................................................................... 21
COLETA DE DADOS ................................................................................................ 24
ANÁLISE DE DADOS ............................................................................................... 27
RESULTADOS.......................................................................................................... 29
Impactos ambientais percebidos ............................................................................... 29
Impacto nas espécies focais ..................................................................................... 31
DISCUSSÃO ............................................................................................................. 39
Impacto múltiplos e multidirecionais .......................................................................... 39
Espécies impactadas e suas características biológicas ............................................ 40
Causas do declínio populacional percebido .............................................................. 41
CONCLUSÕES E DIRECIONAMENTOS FUTUROS ............................................... 42
REFERÊNCIAS......................................................................................................... 44

LISTA DE FIGURAS
Figura 01: representa a (a) Área de estudo mostrando a APA Costa dos Corais e sua
diversidade de tipos de pesca, marisqueiras (b) incluindo pesca no mar de dentro (c) e
pesca no mar de fora (d). Fonte: Monitoramento da pesca em Paripueira,
PELDCCAL/UFAL, Colônia Z-21 ............................................................................... 21
Figura 02: evidencia a estrutura da organização da pesca artesanal local, considerando
os diferentes habitats, seus respectivos nomes locais e as espécies neles encontradas
.................................................................................................................................. 23
Figura 03: representa a distribuição das citações de mudanças ambientais mencionadas
por moradores da APA Costa dos Corais de acordo com o sistema em que são
observadas. As mudanças mencionadas foram categorizadas nos sistemas atmosférico
(e.g., mudanças na chuva, temperatura, nuvens), físico (e.g., água, rios, solo), biológico
(e.g., peixes) e humano (e.g., doenças, bem-estar). Os valores no eixo y indicam a
proporção do total de citações (392) correspondente a cada sistema ...................... 30
Figura 04: representa a distribuição das citações de mudanças ambientais mencionadas
por moradores da APA Costa dos Corais de acordo com o sistema e sub-sistema em que
são observadas. As mudanças mencionadas foram categorizadas nos sistemas
atmosférico (e.g., mudanças na chuva, temperatura, nuvens), físico (e.g., água, rios,
solo), biológico (e.g., peixes) e humano (e.g., doenças, bem-estar). Os valores no eixo x
indicam a proporção do total de citações (392) correspondente a cada sistema e subsistema ...................................................................................................................... 31
Figura 05: Número de relatos dos entrevistados avaliando a percepção de mudança nas
espécies de pescado ................................................................................................ .35
Figure 06. Relação entre a precepção local sobre as mudanças observadas nas
populações das 31 espécies em função das diferentes variáveis explicativas com efeito
significativo, incluindo a) nível trófico; b) tamanho corpóreo, status da IUCN (LC=Pouco
preocupante; DD= Deficinte de dados; NE=Quase ameaçado; VU=Vulnerável); e d)
hábito alimentar ......................................................................................................... 36
Figura 7. Boxplot evidenciando as diferenças entre os motivos relatados pelos
entrevistados para as mudanças percebidas nas espécies de pescados avaliados . 39

LISTA DE TABELAS

Tabela 01: Exemplos de respostas para a classificação dos tipos de impactos ....... 28
Tabela 02: Percepções locais de pescadores e pescadoras da APA Costa dos Corais
sobre mudanças populacionais associadas aos recursos pesqueiros ...................... 32
Tabela 03: Frequência absoluta e frequência relativa dos tipos de motivos mencionados
por pescadores e pescadoras da APA Costa dos Corais como causa para mudanças
populacionais em diferentes espécies de pescado ................................................... 37

3

APRESENTAÇÃO

As mudanças ambientais globais vêm alterando de forma substancial os sistemas
naturais, causando impactos profundos nos sistemas socioecológicos. Por mudanças
ambientais globais consideram-se fatores de magnitude global, ou fatores de magnitude
local com desdobramentos globais e que, de alguma maneira, interferem nos processos
biofísicos naturais do planeta (HACKMANN; MOSER; ST. CLAIR, 2014; VITOUSEK,
1992). Entre os diversos impulsores dessas mudanças, destacam-se as mudanças
climáticas – que vêm sendo detectadas em todo o planeta e representam um dos maiores
desafios das sociedades contemporâneas. A aceleração das mudanças climáticas, por
sua vez, origina-se nas ações antrópicas desordenadas, intensificadas desde a revolução
industrial, que aceleraram de forma significativas os processos de alterações da
temperatura e do clima no mundo (IPCC, 2022).
Os impactos das mudanças ambientais são vastos, especialmente em ambientes
costeiros, onde populações humanas vivem em alto grau de dependência da
biodiversidade marinha (RAWOTH, 2017). Essas áreas abrigam uma grande variedade
de estratégias de pesca, praticadas em diferentes ambientes (como recifes, alto mar e
mangues) e que envolvem diferentes espécies (VASCONCELLOS et al., 2011) e
sofisticados sistemas de conhecimento adquirido ao longo de gerações por pescadores
e pescadoras artesanais. No Brasil, assim como em diversas áreas costeiras ao redor do
mundo, ecossistemas costeiros e a pesca artesanal encontram-se ameaçados pelas
mudanças ambientais (BATISTA et al., 2014), mesmo em Áreas Marinhas Protegidas
(AMPs) – que, embora estejam entre as principais ferramentas para conservação dos
estoques pesqueiros, no Brasil, têm ação limitada devido a falta de recursos financeiros,
infraestruturais e humanos (BATISTA et al., 2014).
Diante da necessidade de se avaliar os impactos das mudanças globais, em
especial as mudanças climáticas, em sistemas sócioecológicos, o Conhecimento
Ecológico Local (CEL), desenvolvido de forma empírica ao longo de uma longa e estreita
interação entre humanos e ambiente (BROOK; MCLACHLAN, 2008), tem sua

4
importância cada vez mais reconhecida no entendimento e enfrentamento dos impactos
das mudanças ambientais (REYES-GARCIA et al. 2016).
Neste sentido, esta pesquisa tem o objetivo de investigar, a partir do conhecimento
ecológico local, os impactos das mudanças globais e que por serem mudanças
significativas, tem desdobramentos globais na atividade pesqueira na maior Unidade de
Conservação marinha costeira do Brasil, a Área de Proteção Ambiental da Costa dos
Corais (APACC).

As comunidades da APACC, em particular as comunidades de

Paripueira e Barra de Santo Antônio, praticam historicamente atividades ligadas à pesca
em diversos ecossistemas costeiros, porém de acordo com o conhecimento ecológico
local, esses ambientes naturais encontram-se ameaçados pela elevada pressão da
pesca, mudanças no sistema atmosférico, sistema biológico e físico. Pescadores e
pescadoras locais mencionam reduções nos estoques pesqueiros e o desaparecimento
de algumas espécies, que atribuem a diversos fatores incluindo a poluição, a sobreexploração de recursos e o crescimento da ocupação da costa (ALBUQUERQUE, 2016;
DOS SANTOS et al., 2014).
A partir dessas observações iniciais, pretende-se, investigar sistematicamente o
conhecimento ecológico local dos moradores da APACC, buscando entender: a) quais
as principais mudanças ambientais percebidas localmente; b) como diferentes espécies
de pescado de importância cultural e socioeconômica estão sendo afetadas por essas
mudanças; e c) como as percepções locais acerca das mudanças populacionais de
espécies de pescado se relacionam com características bioecológicas, econômicas e
grau de ameaça das espécies. Por fim, discute-se como esse entendimento detalhado
dos impactos das mudanças ambientais trazido à luz do conhecimento ecológico local
pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de manejo e adaptação que
possam aumentar a resiliência dos sistemas socioecológicos locais frente às mudanças
ambientais.
Finalmente, destaco que sou membro de uma das comunidades onde esse
trabalho foi realizado (Paripueira). Possuo experiência enquanto pescador profissional
artesanal há 20 anos, venho de família tradicional da pesca, filho de pescador e
pescadora artesanal, e atualmente atuo como liderança comunitária de Paripueira. Sendo
liderança, estava sendo cobrado a algum tempo, pela comunidade, sobre a possibilidade

5
de haver estudos que pudessem trazer explicações sobre o desaparecimento de algumas
espécies, de importância local para as comunidades. Percebendo ainda, que muitos dos
estudos que chegavam na comunidade não contemplam de maneira plena esse desejo
local, aceitamos então o desafio de concorrer a uma vaga no mestrado na área
Conservação e Biodiversidade. Uma caminhada extremamente difícil, que me fez
perceber que para ajudar alguém, primeiro precisamos ajudar a nós mesmos. O mestrado
foi mais do que sonhamos e pensamos inicialmente, não conseguimos apenas ajudar a
comunidade, fomos agraciados com respostas que nos levaram além do que nos
propomos na largada inicial. Além disso, desde 2018 venho colaborando com projetos de
pesquisa no âmbito do Projeto Ecológico de Longa Duração (PELDCCAL/UFAL), o que
tem me permitido atuar na interface entre os sistemas de conhecimento científico e local.
Considero que o trabalho aqui desenvolvido em sua totalidade, incluindo as relações com
a comunidade, a obtenção de informações fidedignas, a interpretação dos resultados e o
entendimento amplo do sistema socioecológico como um todo foram todos amplamente
favorecidos por essa minha atuação como pescador e membro da comunidade.
REFERÊNCIAS
ALBUQUERQUE, A. L. Evolução urbana e caracterização geoambiental da planície
costeira do município de Paripueira - Alagoas. 2016. 116 f. Dissertação (Mestrado
em Geografia) – Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente, Programa
de Pós Graduação em Geografia, Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2016.
BROOK, R.K.; MCLACHLAN, S.M. Trends and prospects for local knowledge in
ecological and conservation research and monitoring. BiodiversConserv, v. 17, n.14, p.
3501–3512, jan./dez. 2008.
BATISTA, V. S; FABRÉ, N. N.; MALHADO, A. C.; LADLE, R. J. Tropical artisanal
coastal fisheries: challenges and future directions. Reviews in Fisheries Science &
Aquaculture, v. 22, n. 1, p. 1-15, 2014. DOI:
https://doi.org/10.1080/10641262.2013.822463
HACKMANN, H.; MOSER, S. C.; ST. CLAIR, A. L. The social heart of global
environmental change. Nature Climate Change, v. 4, n. 8, p. 653–655, 2014. DOI:
https://doi.org/10.1038/nclima2320

6
Intergovernmental panel on climate change (IPCC). Climate Change 2022: Impacts,
Adaptation and Vulnerability. Acesso em 08 de março de 2022.
https://report.ipcc.ch/ar6wg2/pdf/IPCC_AR6_WGII_FinalDraft_FullReport.pdf
IPCC. Summary for Policymakers: Climate Change 2022_ Impacts, Adaptation and
Vulnerability_Working Group II contribution to the Sixth Assessment Report of the
Intergovernamental Panel on Climate Change. [s.l: s.n.].
RAWORTH, K. A Doughnut for the Anthropocene: humanity's compass in the 21st
century. The Lancet Planetary Health, v. 1 (2), maio 2017. DOI:
https://doi.org/10.1016/S2542-5196(17)30028-1
REYES-GARCÍA, V. et al. Local indicators of climate change: The potential contribution
of local knowledge to climate research. Wiley Interdisciplinary Reviews: Climate
Change, v. 7, n. 1, p. 109–124, 2016.
.VASCONCELLOS, M.; DIEGUES, A. C.; KALIKOSKI, D. C. Coastal fisheries of
Brazil, p.73-116, 2011.
VITOUSEK, P. M. Global Environmental Change: An Introduction. Annual Review of
Ecology and Systematics, v. 23, n. 1, p. 1–14, nov. 1992. DOI:
https://doi.org/10.1146/annurev.es.23.110192.000245

7
1 REVISÃO DA LITERATURA

1.1 Mudanças ambientais globais e seus desdobramentos nos ecossistemas
marinhos
Ao longo da história o ser humano tornou-se um elemento da natureza único,
dada a sua capacidade de alterar drasticamente os ambientes naturais. As mudanças
globais, resultantes, sobretudo, do crescimento da população e do avanço tecnológico,
têm gerado degradação em massa nos ecossistemas (STEFFEN et al., 2011). Esse
cenário compreende-se no que vem sendo chamado de “antropoceno”, período em que
a ação humana é preponderante na alteração dos ecossistemas e que tem levado os
recursos naturais à escassez (LEWIS; MASLIN, 2015; WATERS et al., 2016).
As mudanças ambientais globais são compreendidas como fatores de magnitude
global, ou, fatores de magnitude local, com desdobramentos globais e que, de alguma
maneira, interferem nos processos naturais do planeta

(HACKMANN; MOSER; ST.

CLAIR, 2014; VITOUSEK, 1992). Tais mudanças ocorrem principalmente nas dimensões
socioeconômica e cultural, gerando avanços em diversas áreas de conhecimento,
comportamentos sociais e desenvolvimento tecnológico. Estes avanços sociais, por sua
vez, podem vir acompanhados de impactos para os ecossistemas, biodiversidade e
saúde humana, por trazerem consigo fatores que geram demandas insustentáveis do
ponto de vista da capacidade de suporte e estrutura dos recursos naturais
(CONFALONIERI et al., 2002; FEARNSIDE, 2009), com consequências drásticas para
as diferentes formas de vida.
Entre os diversos fatores impulsionadores das mudanças globais, destacam-se
as mudanças climáticas (HOEGH-GULDBERG et al., 2019). Os impactos das mudanças
climáticas são visíveis em todo mundo gerando profundas consequências nos recursos
hídricos, como o aumento do nível do mar e na frequência de enchentes de rios (DÍAZ et
al., 2019). Estudos apontam como possíveis consequências das mudanças climáticas a
diminuição das áreas para cultivo, escassez de água, inundações costeiras e aumento
da demanda de energia (ARNEL et al., 2016).
Nos mares e oceanos, as mudanças climáticas têm levado a alterações químicas
importantes, dentre as quais se destaca a acidificação dos oceanos. A acidificação é

8
causada pela elevada concentração de CO2 na atmosfera e sua consequente dissolução
na água, atingindo diretamente a dinâmica e a vida de organismos marinhos (HARLEY
et al., 2006). Além disso, o aumento da temperatura atmosférica e da água altera a
capacidade dos oceanos de troca gasosa e diminui a dissolução de oxigênio. Com o
aquecimento dos oceanos, já há registro de espécies desaparecendo, como na Austrália
a alga gigante Macrocystic pyrifera, por exemplo (KUOK HO, 2020).
Outras mudanças importantes que ocorrem nos mares e oceanos estão
relacionadas às mudanças das correntes oceânicas, causadas pelas alterações na
intensidade dos ventos, aumento de calor e derretimento das geleiras (HAYS, 2017). Tais
correntes oceânicas possuem um papel fundamental na estrutura e manutenção da vida
existente nos oceanos. Muitas espécies marinhas de pequeno e grande porte (tartarugas,
baleias, mexilhões) dependem do equilíbrio dessas correntes para poderem se alimentar,
reproduzir e continuar sua existência. Portanto, alterações nessas correntes podem
afetar substancialmente o ciclo de vida de várias espécies.
De fato, as diversas alterações causadas pelas mudanças climáticas em
ambientes marinhos têm diversas consequências para espécies e ecossistemas. Ao
longo das últimas décadas, tem-se acumulado evidências que apontam para efeitos
significativos das mudanças climáticas em padrões de distribuição e abundância de
espécies, assim como nas relações existentes entre os diferentes grupos de organismos
marinhos (KUOK HO, 2020). Neste sentido, entender quais são os ecossistemas as
espécies mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas é de fundamental
importância para prever e mitigar estes efeitos. Espécies intolerantes a temperaturas
altas, por exemplo, podem aumentar a mortalidade nessas condições resultando na
redução de populações (PÖRTNER; PECK, 2010). A ausência da capacidade de
adaptação

às

mudanças

ambientais

no

ambiente

marinho

compromete

o

desenvolvimento e a sobrevivência de espécies (PÖRTNER; PECK, 2010), e
consequentemente afeta a atividade pesqueira.
Os recifes de corais, por exemplo, são ecossistemas particularmente vulneráveis
aos efeitos das mudanças climáticas (HUGHES et al., 2017), que causam impactos
significativos na dinâmica comportamental e no ciclo de vida das espécies que estão
associadas a esses ecossistemas (MUNDAY, 2008). O aumento da temperatura do mar

9
tem influência no desenvolvimento das espécies de coral, afetando principalmente o
período larval, ao mesmo tempo em que pode levar a altas taxas de mortalidade. Além
disso, outro importante reflexo das mudanças climáticas é o processo de branqueamento
dos corais, que, somado a acidificação dos oceanos, colabora para a diminuição da
população de peixes recifais (MUNDAY, 2008; PORTNER & PECK, 2010). A degradação
dos recifes de corais atinge a economia local de comunidades costeiras que retiram sua
subsistência principalmente da pesca e da atividade turística, onde os corais têm papel
de destaque.
Por se tratar de um ambiente costeiro marinho, onde os impactos das mudanças
ambientais globais são pronunciados em diversos estudos científicos, esperasse
encontra em nossa área de estudo um repertorio de mudanças significativas para os
diferentes sistemas que compõem o sistema socioecológico local. Mudanças as correstes
oceânicas, ventos, precipitações de chuvas, tamanho corpóreo das espécies e alterações
na dinâmica da atividade da pesca.

1.2 Pesca artesanal

A pesca artesanal é uma atividade que compreende cerca de 90% dos
pescadores(as) a nível global, e, portanto, possui uma enorme relevância econômica,
social, ambiental e cultural (BATISTA et al., 2011; BEGOSSI; DA SILVA, 2004; MORETZSOHN; CARVALHO; SOARES, 2013). Além da sua relevância como atividade de
subsistência, a pesca artesanal também representa uma porção significativa da produção
comercial de peixes, contribuindo com aproximadamente 50% do volume total de
pescado (KALIDIN et al., 2020). É possível caracterizá-la como uma atividade
desenvolvida com pouca tecnologia, se comparada a pesca industrial

(DIEGUES;

ROSMAN, 1998), embora envolva um conjunto de técnicas e conhecimentos sofisticados,
oriundos do conhecimento ecológico local.
Por se tratar de uma prática ensinada de geração em geração, a pesca artesanal
influência de forma significativa as relações sociais de uma comunidade, como também
é produtora de cultura (ABREU et al., 2022). A interdependência com os ecossistemas
marinhos contribui para a construção de um conhecimento particular sobre o ambiente

10
marinho e costeiro, que pode ser considerada uma fonte valiosa para o desenvolvimento
de estratégias voltadas para a conservação dos ambientes e ecossistemas (DIEGUES,
2000).
Embora os impactos ambientais oriundos da

pesca

industrial sejam

desproporcionalmente maiores do que aqueles gerados pela pesca artesanal, ambas
quando praticadas de maneira não sustentável podem ter consequências diretas nos
estoques de peixes e ecossistemas marinhos (WHEELER; VON BRAUN, 2013). Neste
sentido, esforços para entender o efeito de mudanças ambientais nas atividades
pesqueira devem estar atentos às interações entre pressões de pesca e outros fatores –
como as mudanças climáticas e a poluição, como impulsores das mudanças ambientais.

1.3 Unidades de Conservação e Áreas Marinhas protegidas
Coadunando com práticas das sociedades mais tradicionais, e com o objetivo de
conservar e preservar a biodiversidade, o Brasil tem adotado já há algum tempo a criação
de Áreas Protegidas, como as Unidades de Conservação (OLIVEIRA, 1999; VALLEJO,
2002). Que, de acordo com a lei n 9.985/2000, do SNUC, define as unidades de
conservação (UC) como o "espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as
águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo
Poder Público", com o objetivo de conservação (ICMBIO, 2023) – de acordo com os
dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO, 2019), até
o ano de 2019 dentre as 334 unidades de conservação federais (UCs) administradas pelo
ICMBio, existiam 87 UCs de uso sustentável, entre áreas terrestres e/ou marinhas, de
Proteção Integral ou de Uso Sustentável.
As Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) têm a finalidade de preservar a
biodiversidade dos diversos estressores providos pelas ações antrópicas em ambientes
marinhos (ADVANI et al., 2015). No caso das AMPs de uso sustentável, combinam-se
objetivos de proteção de biodiversidade com a manutenção de meios de vida locais,
através do uso sustentável dos recursos naturais da biodiversidade (MORETZ-SOHN;
CARVALHO; SOARES, 2013). Ao longo do tempo essas áreas se tornaram importantes
ferramentas para a preservação dos ecossistemas, espécies e serviços ecossistêmicos
a nível local e global. Um exemplo é a Área de Preservação Ambiental Costa dos Corais,

11
que é a maior área protegida marinho costeira do Brasil. Desde a revisão de seu plano
de manejo de manejo, no ano de 2018, tem-se adotado um olhar mais inclusivo,
conciliando objetivos de preservação da biodiversidade, e também assegurando a
manutenção dos modos de vida e cultura das comunidades tradicionais locais (ICMBIO
2021).

1.4 APA Costa dos Corais: Barra de Santo Antônio e Paripueira

A APA Costa dos Corais é uma Área Protegida de uso sustentável (Categoria V
na IUCN), sendo a maior Área Protegida marinho costeira do Brasil, com
aproximadamente 400.000 hectares. As principais atividades econômicas desenvolvidas
na APA Costa dos Corais são o turismo e a pesca artesanal, sendo a pesca a principal
fonte de renda para as famílias de pescadores(as) locais (BARBOZA, 2019). De acordo
com os resultados do diagnóstico da pesca, realizado no ano de 2018, duas das maiores
comunidades pesqueiras da APACC estão localizadas nos municípios de Paripueira e
Barra de Santo Antônio, que realizam respectivamente 41% e 47% de suas atividades
pesqueiras de forma embarcada (BARBOZA, 2019). Pescadores e pescadoras desta
região praticam historicamente atividades ligadas à pesca em diversos ecossistemas
costeiros como manguezais e ambientes recifais.
Estes municípios Barra de Santo Antônio e Paripueira compreendem a parte Sul
da APA Costa dos Corais e são representativas áreas costeiras da costa do nordeste
brasileiro, no estado de Alagoas. Além de celeiro de fortes lideranças locais, pescadores
e pescadoras, comprometidas com a preservação da biodiversidade e com a ciência.
Porém, esses ambientes naturais encontram-se ameaçados pela elevada pressão da
pesca, a urbanização e a sobrecarga turística, responsáveis por colocar o capital natural
dessas comunidades em risco (ALBUQUERQUE, 2016; FIGUEIREDO, 2021;
MENDONÇA, 1996). Pescadores e pescadoras locais mencionam reduções nos
estoques pesqueiros e o desaparecimento de algumas espécies, que atribuem a diversos
fatores incluindo a poluição, a sobre-exploração de recursos e o crescimento da
ocupação da orla marítima. A urbanização e a sobrecarga turística são também vistos

12
como responsáveis por colocar as comunidades para distante de seus locais de
importantes para pesca (ALBUQUERQUE, 2016; DE FIGUEIREDO, 2021).

1.5 Conhecimento ecológico local

Embora as evidências sobre o efeito das mudanças climáticas em ecossistemas
marinhos sejam cada vez mais abundantes, ainda há diversas lacunas de conhecimento,
em particular no que diz respeito aos impactos dessas mudanças sistemas
socioecológicos (GUIMARÃES, 2022; NASCIMENTO, 2017). Neste sentido, o
conhecimento ecológico local construído a partir de experiências vividas, pode trazer
importantes contribuições para identificar as alterações ocorridas ao longo do tempo nos
sistemas físicos, biológicos e socioeconômicos em escala local (GARCIA, 2022).
Além disso, o conhecimento desenvolvido ao longo de gerações a partir de
experiências com os ambientes naturais pode colaborar para uma nova gestão dos
recursos naturais, onde comunidades locais possam ser protagonistas e gestoras
biodiversidade/ambiente/território que manejam (DAVIS, 2003; BEGOSSI, 2004). Outra
característica do Conhecimento Ecológico Local (CEL) é a sua natureza dinâmica, ou
seja, este está constantemente sendo confrontado e atualizado frente às mudanças
ambientais em curso. Trata-se, assim, de uma fonte histórica, porém atual, de
conhecimento, que pode somar nos processos de conservação e monitoramento. Além
disso, o CEL pode apontar o caminho para soluções de maneira mais rápida,
considerando que a geração de conhecimento científico pode ser demorada (BROOK,
2008).
Esse entendimento sobre o potencial do CEL orienta essa proposta de pesquisa,
que será enfocada nas percepções das comunidades locais da Área de Proteção
Ambiental Costa dos Corais no que diz respeito às consequências das mudanças
climáticas nas diferentes modalidades de pesca. Partindo do pressuposto de que a partir
das percepções ambientais de pescadores e pescadoras artesanais é possível aumentar
a compreensão dos impactos sofridos nos sistemas socioecológicos, o que pode
subsidiar estratégias mais eficientes de mitigação e enfrentamento às mudanças
ambientais.

13
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17
Conhecimento ecológico local revela informações valiosas sobre o impacto das mudanças
globais nos recursos pesqueiros costeiros
Johnny Antonio da Silva Lima, André Braga Junqueira, José Gilmar Cavalcante de Oliveira,
Guilherme G. Mazzochini, Vandick Batista e João Vitor Campos-Silva.
RESUMO
As mudanças globais têm causado diversas alterações nos sistemas costeiros por meio da poluição,
sobre-exploração de recursos, aumento da temperatura na atmosfera e oceanos, além de eventos
climáticos extremos. Essas mudanças atingem diversas regiões do planeta, causando impactos
profundos nos sistemas socioecológicos, sobretudo nas comunidades humanas pesqueiras que
dependem fortemente dos recursos marinhos. Nesta pesquisa, avaliamos o impacto das mudanças
ambientais em duas comunidades costeiras de pescadores no Nordeste do Brasil, situadas na Área
de Proteção Ambiental Costa dos Corais, a maior área protegida marinha costeira do Brasil. Com
base em entrevistas semiestruturadas, investigamos a percepção de pescadores e pescadoras a
respeito das mudanças ocorridas na atividade pesqueira, identificando as espécies mais impactadas
e as causas do impacto. Os resultados indicam que os moradores locais percebem impactos das
mudanças globais nos recursos pesqueiros de forma ampla e multidirecional em diferentes sistemas
e subsistemas. Além disso, reportam que espécies de alta importância para a subsistência e
economia locais estão com suas populações em declínio ou até mesmo extintas localmente, como
é o caso dos bivalves massunim (Tivela mactroides) e berdigão (Anomalocardia brasiliana), e dos
peixes ubarana (Albula vulpes), xaréu (Canranx hippos) garoupa (Epinephelus marginatus) e
sirigado (Mycteroperca bonaci). A percepção de declínio populacional varia entre espécies, e está
associada ao valor comercial e nível trófico. Nosso estudo demonstra o potencial do conhecimento
ecológico local para o entendimento detalhado dos efeitos das mudanças globais em sistemas
sócio-ecológicos. Essas informações podem fornecer subsídios para a estruturação de políticas
públicas e estratégias de adaptação eficientes e adequadas ao contexto local.
Palavras-chave: sistemas socioecológicos, pesca artesanal, mudanças climáticas, percepções,
APA Costa dos Corais
Highlights:
1. Dentre as mudanças globais percebidas pelos entrevistados, o sistema atmosférico é o que
acumula mais impactos percebidos com 47% das mudanças;
2. Pescadores e pescadoras reportam declínios populacionais para 96% das 31 espécies de
pescado avaliadas, sendo o principal motivo a sobrepesca;
3. Os bivalves, principais alvos da pesca de mariscagem, que é majoritariamente feminina,
são os que acumulam mais impactos significativos dentre todas as espécies avaliadas.
4. Valor comercial e nível trófico são variáveis importantes para explicar a percepção sobre o
declínio populacional.

18
INTRODUÇÃO
As mudanças ambientais globais, incluindo as mudanças climáticas, a sobre-exploração
de recursos e a degradação de ecossistemas vêm causando impactos profundos nos sistemas
socioecológicos costeiros ao redor do planeta (DÍAZ et al., 2019; HOEGH-GULDBERG et al.,
2019; PETERMANN; NICOLODI, 2010) . As mudanças climáticas representam um dos maiores
desafios das sociedades contemporâneas e seus impactos são vastos, especialmente em ambientes
costeiros, onde populações humanas vivem em alto grau de dependência da biodiversidade marinha
(RAWORTH, 2017). Dentre as consequências ambientais decorrentes das alterações do clima nos
ambientes marinhos, destacam-se o aumento da temperatura do ar e da água, aumento na frequência
de tempestades, aumento dos níveis da água, mudanças nas correntes marítimas e mudanças nos
ventos, que podem impactar fortemente padrões de distribuição e migração de espécies (HARLEY
et al., 2006; IPCC, 2022; GARCIÁ MOLINOS; BURROWS; POLOCZANSKA, 2017).
Espécies sensíveis a temperaturas altas ou que estejam em condições próximas ao seu
limite máximo de tempratura, podem enfrentar reduções populacionais significativas (PÖRTNER
& PECK, 2010). Além disso, o aumento da temperatura oceânica leva a um aumento do
metabolismo dos peixes, limitando ganho de massa corpórea e afetando a produção pesqueira
(PAULY; CHEUNG, 2018). Adicionalmente, a acidificação dos oceanos em função da maior
concentração de CO2 na atmosfera, prejudica a saúde dos recifes de corais e toda a fauna associada
a esses ambientes tão importantes e vulneráveis (HOEGH-GULDBERG et al., 2017). Somado a
esses impactos, as mudanças climáticas afetam as comunidades humanas que habitam zonas
costeiras, em áreas diversas como sua subsistência, cultura, segurança alimentar e renda
(MARKKANEN; ANGER-KRAAVI, 2019).
Além dos efeitos das mudanças climáticas, impactos diretos da ação humana como a
poluição e sobre-exploração de recursos aquáticos marinhos também têm efeitos drásticos e
representam graves ameaças para a biodiversidade e para a segurança econômica e alimentar das
comunidades pesqueiras (VIANA, 2013). A poluição de ambientes afeta todos os níveis tróficos,
contaminando o fitoplâncton, causando mortandade em massa de peixes, gerando bioacumulação
de componentes químicos tóxicos nos tecidos de diversas espécies marinhas (BARRON, 2012;
HUANG et al., 2011; LAW; HELLOU, 1999; OLSEN et al., 2019). Já a redução dos estoques
marinhos como resultado da sobrepesca vem sendo percebida há bastante tempo, levando ao
colapso diferentes modalidades de pesca ao redor do mundo (PAULY; WATSON; ALDER, 2005).

19
Espécies de grande porte, nível trófico e alto valor comercial, e de população natural reduzida, por
exemplo, podem ser alvo de reduções populacionais agudas, chegando a ser extintas em muitas
localidades (ROSA; MENEZES, 1996). O mero (Epinephelus itajara), por exemplo, é um exemplo
emblemático de espécie de grande importância na pesca, cuja sobre exploração levou os estoques
ao declínio (LOCATELLI et al., 2023).
O impacto das mudanças ambientais globais nos sistemas socioecológicos , no entanto, é
muito complexo e heterogêneo, variando por exemplo de acordo com o tipo de atividade praticada
e com a bioecologia dos recursos explorados (ROGERS; DOUGHERTY, 2019). Em ambientes
costeiros tropicais isso é particularmente importante, considerando que abrigam uma grande
variedade de estratégias de pesca, praticadas em diferentes ambientes (e.g., recifes, alto mar e
mangues) e que envolvem diferentes espécies-alvo (VASCONCELLOS et al. 2011). Além disso,
esses impactos afetam diferencialmente as espécies; por exemplo, os lutjanídeos (caranha,
vermelho), e serranídeos (sirigado, garoupa, badejo), por serem espécies recifais e de alto valor
comercial, são mais vulneráveis à sobre pesca e à perda de habitat em decorrência da degradação
dos recifes (MUNDAY, 2004; PRATCHETT; HOEY; WILSON, 2014). Por fim, a vulnerabilidade
de certas espécies e ecossistemas costeiros também pode variar conforme a existência de formas
institucionalizadas de manejo e/ou conservação, como por exemplo a implementação de restrições
à pesca em certas épocas do ano, ou o reconhecimento do status formal de ameaça das espécies
(e.g., segundo a IUCN), , uma vez que essas intervenções podem impactar tanto as populações
dessas espécies quanto as suas relações com comunidades pesqueiras (MEJÍAS-BALSALOBRE
et al., 2021).
Considerando o alto grau de dependência das comunidades costeiras dos habitats marinhos,
assim como das mudanças ocorridas por impactos ambientais globais diversos, percebemos que
tais impactos não afetam apenas sua atividade na pesca, mas também a dinâmica social da qual
fazem parte. Conforme Hoegh-Guldberg et al (2019), o grau de vulnerabilidade de alterações
ambientais depende de fatores sociais além dos de exposições direta, sendo os grupos sociais
pobres os que sofrem maiores consequências desses impactos (HOEGH-GULDBERG et al., 2019).
Os dados da pesquisa, por exemplo, informam ser as mulheres mais afetadas pelas mudanças
ambientais já que os bivalves recurso principal de captura, tem desaparecido ao longo dos anos.
Diminuir essa vulnerabilidade requer novas políticas públicas que contemple uma nova gestão dos
recursos naturais sendo o conhecimento ecológico local importante ferramenta na construção uma

20
nova sustentabilidade (DANKELMAN, 2002). De acordo com o estudo de Denton (2002), mais de
70 % das mulheres do mundo vivem abaixo da linha da pobreza (DENTON, 2002). Pensar,
portanto, políticas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas deve levar em questão a
problemática do gênero nas comunidades.
Dada a complexidade desses sistemas, e embora as evidências sobre os impactos das
mudanças ambientais globais em ecossistemas costeiros sejam cada vez mais abundantes, ainda há
diversas lacunas de conhecimento, especialmente devido à ausência de programas de
monitoramento de longo prazo que possam elucidar e quantificar esses impactos, principalmente
em países emergentes (MEDEIROS; SERAFINI; 2014; RIOJAS-RODRĹGUEZ et al., 2013).
Nesse sentido, o conhecimento ecológico local (CEL), construído a partir de experiências vividas
e/ou compartilhadas por membros de comunidades locais em estreito contato com o ambiente, pode
trazer importantes contribuições para identificar as alterações ocorridas ao longo do tempo nos
sistemas físicos, biológicos e socioeconômicos em escala local (REYES-GARCÍA et al., 2022).
Diversos trabalhos mostram que o CEL é eficaz na detecção de mudanças na biodiversidade, estado
dos recursos naturais e no clima (e.g., CAMINO et al., 2020; KUPIKA et al., 2019). Por isso, esses
sistemas de conhecimento desenvolvidos ao longo de gerações podem prover a base para sistemas
de gestão dos recursos naturais, cuja governança é protagonizada pelas comunidades locais
(BEGOSSI; DA SILVA, 2004; DAVIS; WAGNER, 2003). Além disso, o CEL traz informações
e visões que podem complementar e aprimorar as estratégias de monitoramento e conservação dos
recursos naturais (BERKES; COLDING; FOLKE, 2000), e iluminar soluções mais eficientes,
participativas e inclusivas para o enfrentamento das mudanças globais (BROOK; MCLACHLAN,
2008).
Esta pesquisa tem por finalidade investigar os impactos das mudanças ambientais globais
na atividade pesqueira na maior unidade de conservação marinha do Brasil, Área de Proteção
Ambiental Costa dos Corais (APACC). A partir do conhecimento ecológico local de pescadores e
pescadoras, procuramos compreender (1) quais são as principais mudanças ambientais observadas
(2) quais espécies costeiras estão sendo mais impactadas por essas mudanças, (3) como as
percepções sobre mudanças se relacionam a características sócio-ecológicas das espécies,
hipotetizando que: I) haverá uma percepção de diminuição populacional associada a espécies de
grande porte, de alto valor comercial, recifais, com hábito migratório e consideradas ameaçadas

21
(de acordo com a IUCN); e II) a sobrepesca será o fator mais importante mencionado como
causa das reduções populacionais.

1. MATERIAIS E MÉTODOS
Área de Estudo
A APA Costa dos Corais é uma Área Protegida de uso sustentável (Categoria V na IUCN),
sendo a maior Área Marinha Protegida costeira do Brasil, com aproximadamente 400.000 ha
(Figura 1). As principais atividades econômicas desenvolvidas na APA Costa dos Corais são o
turismo e a pesca artesanal, sendo a pesca a principal fonte de renda para as famílias de
pescadores(as) locais (BARBOZA, 2019). De acordo com os resultados do diagnóstico da pesca,
realizado no ano de 2018, duas das maiores comunidades pesqueiras estão localizadas nos
municípios de Paripueira e Barra de Santo Antônio, que realizam respectivamente 41% e 47% de
suas atividades pesqueiras de forma embarcada (BARBOZA, 2019).

Figura 1. (a) Área de estudo mostrando a APA Costa dos Corais e sua diversidade de tipos de pesca; (b)
pesca de mariscagem; (c) pesca no mar de dentro; e (d) pesca no mar de fora.

22
A pesca artesanal local abriga diferentes tipos de usuários, explorando diferentes recursos
pesqueiros e usando grande variedade de artes de pesca. Dentre os principais tipos de pesca na
APACC, destaca-se a coleta de mariscos, executadas especialmente por mulheres (‘marisqueiras’),
que utilizam equipamentos como facas, baldes, pás e rastelo para a coleta do marisco (BARBOZA,
2019). Este tipo de pesca é praticado nos estuários, perto dos manguezais e na costa durante a maré
baixa, onde as marisqueiras coletam principalmente bivalves, como Anomalocardia brasiliana,
Tivela mactroides e caranguejos, principalmente Cardisoma guanhumi (Figura 2).
A pesca costeira (mar de dentro), é praticada principalmente por homens, embora algumas
mulheres também se dediquem à atividade. A arte comum inclui anzol e linha, redes de cerco, redes
de lançamento, arrasto de praia manual, “covos” (uma armadilha semelhante a um ninho), “jereré”
(uma rede tipo cerco manual), arpões e outras formas de pesca de simples engrenagem. Essas
pescarias costeiras são praticadas nos recifes de coral e ao redor deles (Figura 2), que são acessados
por canoas motorizadas, jangadas e pequenos barcos, podendo chegar a distâncias de até 15km da
costa, ou até mesmo caminhando sobre os recifes próximos durante a maré baixa. As principais
espécies-alvo da pesca costeira são a tainha (Mugil sp.), polvo (Octopus vulgaris) e o peixe
papagaio (especialmente Sparissoma axillare).
A pesca do “mar de fora” como é localmente chamada ocorre nas formações de recife
mais profundas, até a quebra da plataforma continental (Figura 2), abrangendo uma área de 15 à
50km da costa. Este tipo de pesca é quase exclusivamente praticado por homens e requer barcos
maiores com motores potentes que podem acomodar mais equipamento e tripulação. Esses barcos
transportam, em média, de duas a cinco pessoas e passam de três a sete dias no mar. Eles geralmente
usam anzol e linha, espinhel e redes de cerco para capturar peixes pelágicos de grande valor,
incluindo sirigado (Mycteroperca bonaci) e atuns (Thunnus albacares e T. obesus).

23

Figura 2. evidencia a estrutura da organização da pesca artesanal local, considerando os diferentes habitats, seus
respectivos nomes locais e as espécies neles encontradas.

Essas comunidades pesqueiras raramente têm uma fonte alternativa de renda, embora
algumas delas recebam subsídios do governo, principalmente por meio de programas de
transferência de renda e linhas de financiamento através de bancos, a exemplo do PRONAF
(Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar).
Conforme último censo, as comunidades de Paripueira e Barra de Santo Antônio possuem
respectivamente uma área territorial de 92,788 km² e 131,364 km² (IBGE, 2023). Até o final da
década de 1980 eram um único município, sendo Paripueira elevada à categoria de município em
1888, pelo artigo 41, inciso IV, do ato das disposições constitucionais transitórias da constituição
estadual de 05-10-1989, e apenas em apenas em 1991 teve de fato seu primeiro gestor municipal
assumindo suas funções de prefeito (IBGE, 2023).
Ambos os municípios de acordo com o conhecimento local e dados do IBGE (2023) e
moradores locais, a pesca e a exploração da pedra calcárea (corais), eram a principal fonte de sua
economia. Com o passar dos anos e o desenvolvimento do turismo devido a suas praias e linhas de
arrecifes que formam piscinas naturais nas marés baixas, o turismo, passou a integrar se
desenvolver economicamente local.

24
A gestão nas comunidades é feita de maneira participativa, onde as Colônias de
pescadores, Z-14, Z-21 e associações locais, como a Associação de Jangadeiros Artesanais do
Município de Barra de Santo Antônio (AJAMBASA) participam da governança ambiental, junto
ao ICMBio-APA Costa dos Corais, órgão gestor responsável pela Unidade de Conservação (UC),
contando com representação do setor no conselho gestor da UC.
A nível nacional, a Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas
Costeiras e Marinhas (CONFREM/BRASIL), possuem forte liderança, com a secretaria estadual e
secretaria de jovens, com representantes nas duas comunidades. Essa governança local e a nível
nacional, conta ainda com o apoio da Universidade Federal de Alagoas, através do Programa
ecológico de longa Duração, (PELD/CCAL/UFAL), onde as demandas dos pescadores e
pescadoras se tornam também, alvo de estudos científicos. A implantação de um programa de
monitoramento da pesca artesanal local, desde 2018, tem sido um instrumento local de gestão
participativa, onde a universidade Federal de Alagoas (UFAL) e comunidades locais, tem
caminhado juntas para a preservação da biodiversidade local com desdobramentos globais.

Coleta de dados
1ª Fase: percepção de mudanças ambientais
A primeira etapa da pesquisa foi focada na obtenção de informações sobre as mudanças
ambientais observadas (REYES-GARCÍA et al., 2016). Para isso, foram realizadas entrevistas com
pescadores(as) ou marisqueiras(os) reconhecidos(as) localmente como especialistas em diferentes
modalidades de pesca e praticadas em diferentes ambientes. Os dados foram coletados entre agosto
e outubro de 2021, através de entrevistas semiestruturadas, seguindo um protocolo desenvolvido

25
no âmbito do projeto LICCI1 (Indicadores locais de impactos das mudanças climáticas)
(https://licci.eu/).
No total foram realizadas 34 entrevistas, sendo 20 entrevistas com homens e 14 entrevistas
com mulheres. Por comunidade, foram realizadas 20 entrevistas em Barra de Santo Antônio e 14
em Paripueira. Para cada entrevistado, foram feitas as seguintes perguntas: “Você tem notado
alguma mudança na natureza/ambiente ao longo dos últimos 20 anos? Quais?”. Além disso, foram
feitas perguntas adicionais sobre mudanças percebidas em elementos atmosféricos (e.g., nuvem,
vento, temperatura, chuva), físicos (praias, rios, marés, correntes) e biológicos (e.g. peixes,
mariscos, épocas de pesca, etc).
Após as entrevistas individuais, foram realizados dois grupos focais (um por comunidade).
Para o grupo focal, demos preferência a chamar pessoas que ainda não tinham sido entrevistadas,
mas aconteceu de 1 ou 2 pessoas que haviam sido entrevistadas participarem dos grupos focais.
Nos dois grupos focais, as relações de gênero associadas ao comportamento de homens e mulheres
durante o grupo foram percebidas. Os homens tendiam a falar primeiro e dominar a conversa sobre
a pesca embarcada. Já as mulheres, tenderam a falar quando eram incentivadas, em sua maioria, e
falavam mais sobre a pesca no mar de dentro, na beira e na atividade de coleta de marisco. No geral
não ocorreram muitos dissensos durante os grupos focais. Percebeu-se no geral que o conhecimento
sobre a pesca muitas vezes está associado ao local onde ela é realizada, por exemplo, se a pessoa é
especializada na pescar no mar de fora, no mar de dentro ou na coleta de marisco e outros bivalves
que tinham por objetivo avaliar o consenso das informações obtidas nas entrevistas individuais. As
reuniões para os grupos focais aconteceram nas sedes das associações locais responsáveis pela
organização social dos pescadores, contando nove participantes no município Barra de Santo

1

LICCI Project - Local Indicators of Climate Change Impacts, é um projeto da Universidade Autônoma de
Barcelona, que tem por estratégia um método padronizado para investigar as percepções locais sobre
mudanças climáticas em esfera global.

26
Antônio e 11 participantes no município de Paripueira, havendo participação majoritária de pessoas
que ainda não haviam sido entrevistadas nas entrevistas individuais. Ao longo das entrevistas
individuais e grupos focais, foram mencionados diversos nomes de organismos, a partir dos quais
foi elaborada uma lista de 31 espécies consideradas importantes no sistema socioecológico local,
seja para a segurança alimentar das comunidades ou para a geração de renda (Tabela 1).
2ª fase: percepção de mudança nos recursos pesqueiros
A partir dessa lista de espécies, foi dado início à segunda etapa da pesquisa, focada em
avaliar os impactos das mudanças globais em diferentes espécies de pescados, através da percepção
dos pescadores e pescadoras. Os dados da segunda etapa da pesquisa foram coletados entre agosto
de 2022 e janeiro de 2023, por meio de 113 entrevistas estruturadas, sendo 71 entrevistas realizadas
no município de Barra de Santo Antônio e 42 no município de Paripueira. Desse grupo de
entrevistados a maioria foi composta por homens (71%). Nas entrevistas os pescadores e
pescadoras eram indagados sobre a percepção de mudanças em um conjunto de 31 espécies de
peixes e moluscos que ocorrem na região e que possuem diferentes características ecológicas,
biológicas e de importância econômica e cultural. Para cada espécie, foram feitas uma sequência
de três perguntas: a) “Você notou alguma mudança na quantidade dessa espécie ao longo dos
últimos 20 anos?” e, caso a resposta tenha sido positiva, b) “Qual mudança você observou?”, e c)
“Qual a principal causa dessa mudança?”:
Foi obtido Consentimento Prévio e Informado de todas as pessoas entrevistadas nesse
estudo, e o projeto obteve autorizações do Comitê Nacional de Ética em Pesquisa e do Comitê de
Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas (CAAE 26800819.1.0000.5013) e da
Comissão de Ética na Experimentação Animal e Humana da universidade Autônoma de Barcelona
(CEEAH - 4781). O projeto também obteve autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação
da Biodiversidade – ICMBio para a realização de pesquisa científica na APA Costa dos Corais
(SISBIO – 73661-1). O primeiro autor é membro de uma das comunidades nas quais esse trabalho
foi desenvolvido.

Análise de dados

27
Primeiramente, as mudanças ambientais mencionadas pelos entrevistados na primeira fase
de coleta de dados (entrevistas semi-estruturadas) foram agrupadas em categorias de acordo com o
sistema (e.g., atmosférico, físico, biológico, humano) e sub-sistema (e.g., o sistema atmosférico
inclui mudanças nos ventos, chuva, temperatura e correntes marítimas) em que foram observadas,
seguindo o sistema hierárquico desenvolvido pelo projeto LICCI para a categorização de
observações locais de mudanças ambientais (ver https://licci.eu/licci-tree/; (REYES-GARCÍA et
al., 2023). Posteriormente, calculamos a frequência de citações de cada uma das mudanças
mencionadas pelos entrevistados e sua distribuição em categorias.
Posteriormente, com base nos dados obtidos na segunda fase de coleta de dados
(entrevistas estruturadas), avaliamos a percepção dos pescadores em relação às mudanças
populacionais de 31 espécies exploradas pelas comunidades. Para cada espécie, as respostas dos
entrevistados foram codificadas utilizando uma escala Likert elaborada para quantificar a direção
e magnitude das mudanças populacionais de espécies exploradas pelas comunidades, contabilizando
-3 para extinção local, -2 para redução significativa, -1 para pequena redução, 0 para nenhuma mudança, 1
para um aumento pouco significativo, 2 para um aumento significativo.

As respostas dos entrevistados sobre os motivos por trás das mudanças percebidas em
cada espécie foram classificadas em 4 grupos: pressão de pesca, poluição, mudanças climáticas e
alterações de habitat (Tabela 1). Foram classificados na categoria “pressão de pesca” todos os
relatos que estiveram associados a um aumento ou diminuição da pressão de pesca de determinada
espécie, tais como: aumento ou diminuição da quantidade de petrechos ou embarcações e mudanças
de práticas pesqueiras. Foram classificados em “poluição”, relatos que associavam o aumento ou
diminuição de determinada espécie à fatores como, lixo comum, efluentes domésticos e resíduos
da indústria agrícola. Os motivos citados para diminuição ou aumento populacional das espécies
foram classificados em “mudanças climáticas” quando citaram fatores como alterações na
quantidade, intensidade e época das chuvas, alterações na temperatura da água, alterações na
direção, época e intensidade de correntes marinhas ou dos ventos. Já os motivos classificados em
“alterações de habitat” foram todos aqueles cujas mudanças identificadas nas espécies foram
atribuídas à alteração de algum tipo de habitat, como a retração ou expansão de manguezais, bancos
de grama marinha, recifes, praias, alterações de tipo de substrato de fundo, seja por motivos naturais
(assoreamento natural) ou seja, por motivos antrópicos (supressão de vegetação).
Tabela 1. Exemplos de respostas para a classificação dos tipos de impactos.

28
IMPACTO

EXEMPLOS DE RESPOSTA

Pressão de pesca

“É muita rede no mar”, “Muita embarcação pescando”

Poluição

“Muito lixo no mar”, “Tiborna na água do rio”

Mudanças climáticas

“Aumento das chuvas”, “Mudança da época das chuvas”, “água tem
ficado mais quente”

Alterações de habitat

“O ciscado foi aterrado”, “estão acabando com o manguezal”

Por fim, utilizando valores representando a magnitude e direção das mudanças
populacionais padronizados pela escala Likert foi calculada uma média dos valores atribuídos pelos
pescadores dentro desta escala, obtendo um valor médio por espécie, que foi utilizada como
variável resposta nos modelos. Modelamos então essa variável resposta em função das seguintes
variáveis explicativas: hábitos migratórios (fatorial), habitats (numérico-binário), tamanho
corpóreo (numérico), nível trófico (numérico), valor comercial (numérico) e Status de conservação
da IUCN (fatorial) das espécies. Para essas variáveis utilizamos dados secundários oriundos da
literatura, com exceção do valor comercial de cada espécie, que foram coletados com consultas à
vendedores locais de Paripueira e Barra de Santo Antônio.
Para análise dos dados, foram ajustados três modelos, sendo um geral, para todas as
espécies de pescado avaliadas e outros dois separando espécies de peixe, dos invertebrados, por
possuírem um conjunto de características bem distintas não somente à biologia, mas principalmente
ao modo de pesca e comercialização, o que afeta diretamente o preço por kg, por exemplo. O
modelo 1 foi ajustado com todas as espécies e todas as variáveis explanatórias, e em seguida,
utilizou-se a função "dredge" do pacote "MuMIn" para encontrar a melhor combinação de
variáveis. Para evitar o sobreajuste, limitou-se os modelos a no máximo 5 parâmetros estimados,
tendo em vista que havia apenas 31 espécies. Além disso, foi estabelecido que variáveis com
correlação de Pearson maior do que 0.4 não poderiam ocorrer juntas dentro do mesmo modelo. O
melhor modelo foi escolhido com base no menor valor de Akaike Information Criterion (AIC).
Modelos com valor de ΔAIC menor que 2 também são discutidos. Posteriormente, ajustamos mais
dois modelos: o modelo 2 apenas com as espécies de peixes e o modelo 3 apenas com os moluscos
e crustáceos. Ambos os modelos foram submetidos ao mesmo procedimento de seleção de variáveis
para determinar a melhor combinação que melhor explica os dados (BURNHAM; ANDERSON,
2004). Todos os modelos foram rodados inicialmente com o mesmo conjunto de variáveis

29
propostas. Após a seleção entre os modelos parcimoniosos, apenas as variáveis significativas
permaneceram no modelo reduzido.
Para avaliar diferenças no número de citações para cada motivo atribuído á mudança
populacional das espécies, foi usada uma ANOVA. Havendo diferenças significativas, foi usado
um teste a posteriori de Tukey a fim de identificar entre quais grupos há diferenças.

RESULTADOS

Impactos ambientais percebidos
Os pescadores e pescadoras entrevistados percebem uma vasta diversidade de mudanças
ambientais que vêm ocorrendo ao longo das últimas décadas (Figura 2). No total, nas 34 entrevistas
foram mencionadas mudanças ambientais 392 vezes, que foram classificadas em 58 tipos diferentes
de mudanças ambientais. Mudanças pertencentes ao sistema atmosférico foram as mais
frequentemente mencionadas (correspondendo a 193, ou 47% do total de citações), seguidas do
sistema físico (98 citações, 25%), biológico (91 citações, 23,2%) e humano (10 citações, 2,5%;
Figura 2).

Figura 3. Distribuição das citações de mudanças ambientais mencionadas por moradores da APA Costa dos Corais de
acordo com o sistema em que são observadas. As mudanças mencionadas foram categorizadas nos sistemas
atmosférico (e.g., mudanças na chuva, temperatura, nuvens), físico (e.g., água, rios, solo), biológico (e.g., peixes) e

30
humano (e.g., doenças, bem-estar). Os valores no eixo y indicam a proporção do total de citações (392) correspondente
a cada sistema.

Partindo para os subcomponentes desses sistemas, fica clara a grande diversidade das
mudanças percebidas (Figura 3). Mudanças nos sistemas biológicos marinhos representam mais de
20% das citações e refletem percepções relacionadas ao aumento ou redução populacional de
espécies chave, branqueamento de corais, extinção local de espécies, dentre outros (Figura 3). No
sistema atmosférico, destacam-se mudanças nos regimes de precipitação (i.e., quantidade e
distribuição de chuvas; 15,5 % das citações)), nas massas de ar (e.g. mudanças na previsibilidade
e na direção dos ventos; 15,3 % das citações) e na temperatura (em geral uma percepção de aumento
da temperatura; 12,2 % das citações). No sistema físico destacam-se mudanças nos sistemas
marinhos (15,3% das citações), como alterações na temperatura e qualidade da água do mar,
alterações nas taxas de erosão / sedimentação, assim como mudanças em sistemas de água
doce/estuarinos (9,7% das citações), incluindo mudanças no volume e turbidez da água dos rios.
Finalmente, mudanças no sistema ´humano´ representaram somente 2,5% das citações,
correspondendo principalmente a mudanças na incidência de doenças ou de desconfortos causados
por altas temperaturas (Figura 3).

31
Figura 4. Distribuição das citações de mudanças ambientais mencionadas por moradores da APA Costa dos Corais de
acordo com o sistema e sub-sistema em que são observadas. As mudanças mencionadas foram categorizadas nos
sistemas atmosférico (e.g., mudanças na chuva, temperatura, nuvens), físico (e.g., água, rios, solo), biológico (e.g.,
peixes) e humano (e.g., doenças, bem-estar). Os valores no eixo x indicam a proporção do total de citações (392)
correspondente a cada sistema e sub-sistema.

Impacto nas espécies focais
Dentre as 31 espécies avaliadas, as que mais estiveram associadas a mudanças
populacionais de acordo com os 113 entrevistados foram Tivela mactroides (massunim),
Anomalocardia brasiliana (berdigão) (80 relatos cada um; 70,8 % dos entrevistados), e Penaeus
schmitti (camarão-branco) (79 relatos; 69,9 %). Para outras 12 espécies, a percepção mais frequente
foi a de que não houve mudança, com destaque para Albula vulpes (ubarana) (71 relatos; 80,23 %),
Caranx hippos (xaréu) (68 relatos; 76,84%) e Katsuwonus pelamis (bonito) (67 relatos; 75,71%).
Por fim, para 11 espécies os entrevistados afirmaram não saber se houve alguma mudança, com
destaque para Epinephelus marginatus (garoupa) (77 relatos; 87,01%), Lactophrys trigonus
(baiacu-caixão) (55 relatos; 62,15%) e Mycteroperca bonaci (sirigado) (55 relatos; 62,15%)
(Tabela 1, Figura 4).
Dentre as espécies que sofreram alguma mudança de acordo com a percepção dos
entrevistados, quase todos estiveram associados a uma diminuição drástica, destacando-se
novamente Penaeus schmitti (camarão-branco) (67 relatos; 75,71%), Tivela mactroides
(massunim) (61 relatos; 68,93%) e Anomalocardia brasiliana (berdigão) (58 relatos; 65,54%), com
apenas a Hemiramphus brasiliensis (agulha-preta) recebendo mais menções de ter aumentado
muito (3 relatos; 3,39%). As espécies mais frequentemente citadas como alvo de extinção local
foram Tagelus plebeius (unha-de-velho) (35 relatos; 39,55%) e Epinephelus marginatus (garoupa)
(10 relatos; 11,3%) (Tabela 2, Figura 4).
Tabela 2. Percepções locais de pescadores e pescadoras da APA Costa dos Corais sobre mudanças populacionais
associadas aos recursos pesqueiros.
Nome
popular

Espécie

Agulha-brancaHyporhamphus
unifasciatus

Nº
relatos
válidos

O que mudou?
Sumiu

79

15

Diminuiu Diminuiu Não Aumentou Aumentou
muito
pouco
mudou
pouco
muito
44

5

15

32
Agulha-preta Hemiramphus
brasiliensis

67

1

2

Baiacu-caixão Lactophrys trigonus

58

4

7

1

46

Batata

Sparissoma axilare

79

14

19

3

43

Berdigão

Anomalocardia
brasiliana

103

2

61

15

23

Boca-mole

Larimus breviceps

89

2

18

6

63

Bonito

Katsuwonus pelamis

83

11

4

67

Camarãobranco

Penaeus schmitti

Camarãoespigão

61

3

2

1

94

4

67

8

15

Xiphopenaeus
kroyeri

90

1

23

8

54

3

Camurim

Centropomus
paralelus

88

3

32

8

44

1

Cangulo

Balistes vetula

63

12

24

3

20

2

Carapebacinza

Eugerres brasilianus

69

6

30

8

25

Cavala

Scomberomorus
cavala

73

23

4

46

Dentão

Lutjanus jocu

61

24

5

32

Dourado

Coryphaena
hippurus

62

12

2

48

Garassuma

Caranx Crysos

82

27

7

48

Garoupa

Epinephelus
marginatus

36

10

7

1

18

Guaiamum

Cardisoma
guanhumi

77

8

35

6

27

Lagosta

Panulirus argus

63

36

3

23

1

Lagostim

Panulirus echinatus

61

24

5

30

2

Mariscoredondo

Phacoides pectinatus

Massunim

1

2

1

66

22

24

2

18

Tivela mactroides

99

3

58

16

19

1

Piraúna

Cephalopholis fulva

65

3

16

2

43

1

Polvo

Octopus vulgaris

68

3

34

6

23

2

Sardinha

opisthonema oglinum

83

2

25

11

44

1

2

33
Serra

Scomberomorus
brasiliensis

83

Sirigado

Mycteroperca bonaci

58

Ubarana

Albula vulpes

84

Uçá

Ucides cordatus

95

Unha-de-velho Tagelus plebeius
Xaréu

Caranx hippos

32

10

41

15

7

34

6

4

74

3

34

11

45

75

35

28

85

2

13

2

1

1

12
2

68

Figura 5. Número de relatos dos entrevistados avaliando a percepção de mudança nas principais espécies de pescado.

34
Avaliando as relações entre características bioecológicas e econômicas das espécies de
pescado com as mudanças populacionais percebidas localmente, constatamos que as variáveis que
estão mais relacionadas à percepção de mudança populacional das espécies são o valor comercial
e o nível trófico (Figura 5a). O valor comercial apresenta uma relação negativa significativa (t = 2,83, P = 0,009), enquanto o nível trófico é positivo (t = 3,75, P < 0,001). Esse modelo reduzido
consegue explicar 43% da variação total. Destaca-se que o tamanho máximo das espécies está
positivamente correlacionado com o nível trófico e que o segundo melhor modelo incluiu o
tamanho das espécies (t = 3,59, P = 0,001) e o valor comercial (t = -2,72, P = 0,011). Isto é, quanto
maior o tamanho da espécie maior o nível trófico desta espécie.
No modelo 2, ajustado apenas com as espécies de peixes, as variáveis que melhor
explicaram a mudança populacional percebida pelos pescadores foram o tamanho e o valor
comercial (Figura 5b), que juntas explicam 49% da variação. Nesse modelo reduzido, o valor
comercial apresentou uma relação negativa significativa (t = -3,94, P < 0,001), enquanto o tamanho
das espécies foi positivo (t = 3,35, P = 0,004). Isto significa que quanto maior o valor comercial da
espécie, percebe-se uma diminuição do estoque, enquanto para as espécies de maior tamanho,
menor é a percepção de declínio.
No modelo 3, ajustado apenas com as espécies de moluscos e crustáceos, o melhor modelo
incluiu a classificação de status de conservação das espécies de acordo com a IUCN (Figura 5c),
explicando 89% da variação. Nesse modelo reduzido, as duas espécies em maior perigo (classe
NE) apresentaram um declínio maior (t = 5,13, P = 0,002), de acordo com a percepção dos
pescadores (Figura 5c). O modelo com o tipo de alimentação também foi significativo. Nesse
modelo, os pescadores percebem que a queda populacional é maior nos moluscos (filtradores) em
relação aos crustáceos (t = -2.86, P = 0,021; Figura 5d).

35

Figura 6. Relação entre a precepção local sobre as mudanças observadas nas populações das 31 espécies em função
das diferentes variáveis explicativas com efeito significativo, incluindo a) nível trófico; b) tamanho corpóreo, status
da IUCN (LC=Pouco preocupante; DD= Deficinte de dados; NE=Quase ameaçado; VU=Vulnerável); e d) hábito
alimentar.

Em relação aos motivos mencionados pelos entrevistados para as mudanças populacionais
percebidas, para 20 das espécies o principal motivo mencionado foi a pressão de pesca, com
destaque para as espécies Balistes vetula (cangulo) (28 relatos), Opisthonema oglinum (sardinha)
(25 relatos) e Cardisoma guaiumi (guaiamum) (25 relatos). A poluição é listada como principal
motivo para diminuição de 7 espécies, com destaque para berdigão (41 relatos), unha-de-velho (41
relatos) e Tivela mactroides (massunim) (38 relatos). Já as mudanças climáticas são apontadas
pelos entrevistados como principais causas das mudanças para 4 espécies, com destaque para
camarão-branco (31 relatos), agulha-branca (17 relatos) e berdigão (15 relatos). Por fim, as
alterações de habitat foram listadas como principal motivo para a mudança apenas da espécie
agulha-branca (17 relatos) (Tabela 3).

36
Tabela 3. Frequência absoluta e frequência relativa dos tipos de motivos mencionados por pescadores e
pescadoras da APA Costa dos Corais como causa para mudanças populacionais em diferentes espécies de
pescado.
Nome popular

Espécie

Motivos para as mudanças
Pressão de
pesca

Poluição

Mudanças
climáticas

Alterações de
habitat

Agulha-branca

Hyporhamphus
unifasciatus

13 (23,2%)

4 (7,1%)

19 (33,9%)

20 (35,7%)

Agulha-preta

Hemiramphus brasiliensis

4 (100%)

0 (0%)

0 (0%)

0 (0%)

Baiacu-caixão

Lactophrys trigonus

3 (75%)

0 (0%)

1 (25%)

0 (0%)

Batata

Sparissoma axilare

10 (27,8%)

4 (11,1%)

13 (36,1%)

9 (25%)

Anomalocardia brasiliana

8 (8,7%)

54
(58,7%)

18 (19,6%)

12 (13%)

Boca-mole

Larimus breviceps

13 (61,9%)

1 (4,8%)

6 (28,6%)

1 (4,8%)

Bonito

Katsuwonus pelamis

9 (75%)

1 (8,3%)

2 (16,7%)

0 (0%)

Camarãobranco

Penaeus schmitti

20 (25,3%)

10
(12,7%)

32 (40,5%)

17 (21,5%)

Camarãoespigão

Xiphopenaeus kroyeri

4 (11,8%)

6 (17,6%)

13 (38,2%)

11 (32,4%)

Centropomus paralelus

9 (23,7%)

22
(57,9%)

5 (13,2%)

2 (5,3%)

Balistes vetula

31 (79,5%)

6 (15,4%)

2 (5,1%)

0 (0%)

Eugerres brasilianus

4 (8,9%)

28
(62,2%)

7 (15,6%)

6 (13,3%)

Cavala

Scomberomorus cavala

12 (54,5%)

0 (0%)

9 (40,9%)

1 (4,5%)

Dentão

Lutjanus jocu

25 (96,2%)

0 (0%)

1 (3,8%)

0 (0%)

Dourado

Coryphaena hippurus

14 (100%)

0 (0%)

0 (0%)

0 (0%)

Garassuma

Caranx Crysos

25 (73,5%)

1 (2,9%)

6 (17,6%)

2 (5,9%)

Garoupa

Epinephelus marginatus

7 (63,6%)

0 (0%)

3 (27,3%)

1 (9,1%)

Cardisoma guanhumi

28 (54,9%)

11
(21,6%)

4 (7,8%)

8 (15,7%)

Lagosta

Panulirus argus

31 (79,5%)

3 (7,7%)

3 (7,7%)

2 (5,1%)

Lagostim

Panulirus echinatus

25 (80,6%)

2 (6,5%)

3 (9,7%)

1 (3,2%)

Mariscoredondo

Phacoides pectinatus

2 (4%)

38 (76%)

5 (10%)

5 (10%)

Berdigão

Camurim
Cangulo
Carapeba-cinza

Guaiamum

37
Massunim

Tivela mactroides

7 (8,4%)

45
(54,2%)

14 (16,9%)

17 (20,5%)

Cephalopholis fulva

14 (100%)

0 (0%)

0 (0%)

0 (0%)

Octopus vulgaris

23 (46,9%)

18
(36,7%)

7 (14,3%)

1 (2%)

Sardinha

Opisthonema oglinum

27 (75%)

1 (2,8%)

8 (22,2%)

0 (0%)

Serra

Scomberomorus
brasiliensis

24 (66,7%)

1 (2,8%)

10 (27,8%)

1 (2,8%)

Sirigado

Mycteroperca bonaci

16 (80%)

1 (5%)

3 (15%)

0 (0%)

Ubarana

Albula vulpes

3 (37,5%)

0 (0%)

3 (37,5%)

2 (25%)

Ucides cordatus

16 (26,7%)

25
(41,7%)

11 (18,3%)

8 (13,3%)

Tagelus plebeius

2 (2,9%)

51
(73,9%)

9 (13%)

7 (10,1%)

Caranx hippos

6 (66,7%)

1 (11,1%)

1 (11,1%)

1 (11,1%)

Piraúna
Polvo

Uçá
Unha-de-velho
Xaréu

Considerando o total de citações de motivos para mudanças populacionais nas espécies
dos pescados, a ANOVA apontou para diferenças significativas entre as categorias de motivos
(p<0.01), enquanto o teste a posteriori de Tukey identificou que o número de relatos para pressão
de pesca é significativamente maior do que os registrados para alterações de habitat (p< 0.01) e
“mudanças climáticas" (p< 0.05) (Figura 6)

38

Figura 7. Boxplot evidenciando as diferenças entre os motivos relatados pelos entrevistados para as mudanças
percebidas nas espécies de pescados avaliados.

DISCUSSÃO
Impactos múltiplos e multidirecionais
Nossos resultados mostram que os moradores locais percebem impactos das mudanças
globais nos recursos pesqueiros de forma ampla e multidirecional em diferentes sistemas. As
comunidades pesquisadas interpretam, que o sistema atmosférico parece ser o sistema mais
impactado, podendo impactar, por conseguinte, todos os outros sistemas. Na comparação entre
atributos dos sistemas atmosférico, biológico, físico e humano, o componente biológico marinho
foi o que apresentou maior número de citações de impactos percebidos, incluindo principalmente
reduções populacionais de espécies-chave, branqueamento de corais e extinção local de espécies.
Esse resultado pode ser devido à relação de alta dependência dos pescadores com o componente
biológico (PFEFFER; SALANCIK, 2003),. Em se tratando de um conhecimento que se utiliza da
interpretação de fatos socioecológicos, este estudo reforça as evidências sobre o potencial do
conhecimento ecológico local para identificar a complexidade e a diversidade das mudanças

39
ambientais, e a sua expressão em diferentes elementos, incluindo múltiplas espécies e suas interrelações (BRONDÍZIO et al., 2021).
Espécies impactadas e suas características
Nossos resultados mostram que, de acordo com o entendimento de pescadores e
pescadoras que estão em contato direto com ambientes costeiros, muitas espécies importantes para
a subsistência e economia local estão sendo impactadas pelas mudanças globais. Espécies como
Lactophrys trigonus (baiacu-caixão), Epinephelus marginatus (Garoupa), Tagelus plebeius (Unhade-velho), Phacoides pectinatus (Marisco-redondo) e Sparissoma axilare (Batata) são percebidas
como extintas localmente ou sobre forte redução populacional. Há também uma grande variação
entre espécies quanto aos impactos a que estão associadas, sugerindo diferentes vulnerabilidades
em relação às mudanças. De maneira geral, esses resultados são importantes para subsidiar planos
de conservação direcionados especificamente à recuperação populacional dessas espécies.
Os resultados dos modelos indicam que, de acordo com a percepção dos pescadores, as
espécies com maior valor comercial são as que apresentam maior declínio populacional. No
entanto, ao ajustar um dos modelos separados para espécies de peixes das de outros organismos,
observou-se que o valor comercial foi significativo somente para os peixes. Isso pode indicar que
o declínio populacional dos peixes pode ser causado por sobrepesca, conforme já demonstrado em
diversos outros contextos (e.g;. BA et al., 2017; DA SILVA; CHAVES; FONTELES FILHO,
2013). Já no caso dos moluscos e crustáceos, a queda populacional percebida maior é de espécies
que já são ameaçadas de acordo com a IUCN, sendo que os decréscimos populacionais podem estar
relacionados com a sensibilidade das espécies à outras causas antrópicas, como poluição
(ANDRADE et al., 2014) e mudanças climáticas (DE BARROS et al., 2022).
Em sem tratando das espécies alvo de captura em alto mar, nossos resultados coadunam
com o fato de que espécies de peixes de maior tamanho corpóreo, geralmente concentradas no
ambiente pelágico (HAZIN; TRAVASSOS, 2007; RANGELY et al., 2010), são mais visadas
economicamente, tendo um alto valor de mercado e consideradas de primeira qualidade, pois tem
carne mais consistente, com menos espinhas, e melhor sabor (BA et al., 2017; DA SILVA;
CHAVES; FONTELES FILHO, 2013). Embora para o comércio de peixes haja o entendimento de
que as maiores espécies sejam as que apresentam maior valor comercial (BA et al., 2017; DA
SILVA; CHAVES; FONTELES FILHO, 2013), nossa pesquisa aponta que alguns moluscos e

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crustáceos também possuem localmente um elevado valor comercial, mesmo sendo organismos de
tamanho pequeno, como os camarões, lagostas, e alguns bivalves.
De forma geral, as espécies de níveis tróficos mais baixos tiveram uma percepção de
redução populacional mais elevada no modelo geral. No entanto, nos modelos ajustados apenas
para os peixes, esse resultado foi amenizado para as espécies maiores. Isto contrasta bastante com
o fato de que espécies de níveis tróficos elevados, em sua grande maioria grandes predadores
pelágicos, são espécies bastante visadas pela pesca comercial (HAZIN; TRAVASSOS, 2007;
RANGELY et al., 2010), levando a uma maior pressão de pesca (BA et al., 2017; DA SILVA;
CHAVES; FONTELES FILHO, 2013). Provavelmente, as espécies maiores já tiveram suas
populações reduzidas pela pesca no passado, e os pescadores hoje pescam e se alimentam mais das
espécies menores, o que pode explicar porque eles estão percebendo mais mudanças nessas
espécies.

Causas do declínio populacional percebido
Considerando que para 20 das 31 espécies a pressão de pesca foi o principal motivo para
o declínio percebido pelos entrevistados, nossa hipótese foi confirmada. Isso pode ser devido ao
fato de que os impactos causados pela pressão de pesca são de natureza direta e percebidos em
curto e médio prazo além de estarem sendo diagnosticados por cientistas e tomadores de decisão
(FETERSEN, 1903; SHAKOURI; KHOSHNEVIS YAZDI; FASHANDI, 2010), enquanto os
impactos causados pelas mudanças climáticas são usualmente indiretos e percebidos normalmente
em médio a longo prazo (LAST et al., 2011; PÖRTNER; PECK, 2010). Dentre as espécies que se
destacam como particularmente afetadas pela pressão de pesca, destacam-se o Balistes vetula
(cangulo) a Opinthonema oglinum (sardinha) e o Cardissoma ghanumi (guaiamum). No caso do
Penaeus schmitii (camarão-branco), a percepção de diminuição está associada majoritariamente às
mudanças climáticas, o que é relacionado ao fato da espécie ser dependente do ciclo das chuvas
(DE BARROS et al., 2022). Já a poluição é listada como principal fator para o declínio
populacional de mariscos, como a Anomalocardia brasiliana (berdigão), Tivela mactroides
(massunim), Phacoides pectinatus (marisco-redondo) e Tagelus plebeius (unha-de-velho), que, por
serem organismos de hábitos filtradores e de baixa mobilidade, são altamente afetados pela
qualidade da água (ANDRADE et al., 2014).

41
Na comunidade de Barra de Santo Antônio, identificamos também que a poluição é um
fator frequentemente mencionado pelos moradores locais como causa de mudanças nas espécies,
possivelmente devido à contaminação do Rio Santo Antônio por rejeitos industriais e domésticos,
que causa rápida mortandade de organismos aquáticos no rio, e afeta a atividade pesqueira
(ALMEIDA, 2009). Independente da fonte do impacto, os resultados mostram que a grande maioria
das espécies mais importantes no contexto local está sendo percebida como impactada. E esses
impactos afetam todos tipos de pescarias, desde as marisqueiras percebendo redução populacional
dos mariscos, até os pescadores do mar de fora e do mar de dentro percebendo majoritariamente
reduções nas quantidades de peixes. Esses amplos impactos no sistema costeiro podem aumentar
drasticamente a condição de vulnerabilidade das comunidades humanas, aumentando os conflitos
e reduzindo sua resiliência e segurança alimentar (GREENAN et al., 2019; ISLAM et al., 2014;
SALAS et al., 2011). Em resumo, esses resultados indicam que a sobrepesca pode estar
contribuindo para o declínio populacional de algumas espécies de peixes, enquanto outras ameaças,
como a poluição, podem estar afetando mais as espécies de filtradores e detritívoros.
Os impactos não atingem igualmente toda a comunidade, uma vez que são petrechos
diferentes, habitats e diferentes espécies alvo de captura. Neste estudo nossos resultados apontam
para uma percepção de declínio mais acentuado para as espécies alvo da pesca da mariscagem, no
caso os bivalves. Isso se torna algo ainda mais preocupante uma vez que, para a pesca desenvolvida
no mar de fora, majoritariamente desenvolvida por homens, caso uma espécie de peixe decline os
pescadores podem ir mudando de espécies e pescando em áreas cada vez mais distantes, assim
seguem mantendo a sua identidade de pescador. Já no caso das marisqueiras, nossos resultados
apontam que há uma limitação geográfica e do número de espécies, portanto, o declínio das spp
alvo delas pode estar contribuindo para o fim desta profissão e atividade.

Conclusões e direções futuras

Nossos resultados demonstram o potencial do conhecimento ecológico local para a
identificação e entendimento das mudanças ambientais nos sistemas socioecológicos e nas espécies
que os compõem - especialmente em regiões onde a biodiversidade é elevada e os ecossistemas são
complexos. Em particular, demonstramos que pescadores e pescadoras detêm um amplo e
detalhado conhecimento acerca das mudanças ambientais em curso, incluindo alterações em

42
sistemas atmosféricos, físicos e biológicos. Além disso, mostramos como o conhecimento local é
complexo, uma vez que são diferentes artes de pesca, habitats explorados e diferentes espécies alvo
de captura local.

Isso pode revelar diferentes impactos sobre as espécies, com diferentes

intensidades, direções e causas impactos diferenciados sobre diferentes espécies. O conhecimento
ecológico local, baseado na experiência prática das comunidades locais, pode complementar o
conhecimento científico fornecendo informações valiosas para a gestão ambiental e a tomada de
decisões. Portanto, é fundamental incluir as comunidades locais na gestão ambiental e garantir a
sua participação na construção de políticas públicas voltadas à conservação e uso sustentável dos
recursos naturais.
Além disso, nossos resultados apontam para a importância de se considerar as múltiplas
causas das mudanças ambientais em iniciativas visando promover a resiliência das comunidades
costeiras e fomentar estratégias de adaptação. Nesse sentido, faz-se necessário melhorar os
mecanismos de empoderamento dos pescadores das comunidades dos dois municípios e o
estabelecimento de estratégias de gestão participativa onde as funções essenciais para manejo de
recursos de propriedade comum sejam atendidas. Tais medidas precisam incluir a identificação dos
recursos, controle e fiscalização, contemplando regras de uso comercial e de subsistência. Como
exemplos dessas ações, podem ser citados: Manter e fortalecer as representações do setor pesqueiro
no conselho gestor da APA Costa dos Corais; Manter e fortalecer o do diálogo entre academia e
comunidade pesqueira para promover uma ciência sinérgica entre os saberes acadêmicos e locais;
criar o acordo de pesca de forma participativa; e criar os planos de recuperação das espécies
ameaçadas de forma participativa.
O acordo de pesca faz-se necessário também para manejar os conflitos gerados pela
diversidade de modalidades de pesca, com diferentes petrechos e práticas, e consequentemente
diferentes esforços de pesca e poder de captura, uma vez que os estoques mais cobiçados estão em
perceptível declínio. Frente a esses desafios, esta pesquisa identificou que o conhecimento
ecológico local é um aliado essencial na construção dos processos de adaptação e mitigação frente
ao maior problema global mundial atual, as mudanças climáticas. Em um mundo com cada vez
mais impactos ambientais globais e com recursos pesqueiros cada vez mais limitados.

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