Pâmela Oliveira Lima
Impedimentos ao preenchimento das lacunas do conhecimento da biodiversidade: uma análise sobre mamíferos brasileiros
Resumo
A pesquisa científica fornece a base de evidências essencial para a conservação; no entanto, a atenção dedicada aos diferentes componentes da biodiversidade é frequentemente desigual. O Brasil, que abriga a segunda maior riqueza de espécies de mamíferos do mundo e enfrenta severas pressões antropogênicas, oferece um contexto fundamental para examinar esses vieses. Utilizando um conjunto de dados composto por 726 espécies de mamíferos brasileiros não marinhos e 1.246 publicações de acesso aberto (OA) extraídas da *Web of Science* (1978–2025), empregamos essas publicações como um indicador (*proxy*) do esforço científico para avaliar a representatividade e a distribuição do conhecimento produzido em termos taxonômicos, temporais e espaciais. Nossa análise revela que, embora o volume total de publicações tenha crescido significativamente nas últimas décadas, esse aumento mascara profundas desigualdades. O esforço científico concentra-se fortemente em um subgrupo restrito de táxons: apenas 10% das espécies respondem por mais de 56% de todas as associações científicas, impulsionadas frequentemente por sistemas de estudo já estabelecidos ou por espécies de interesse para a saúde pública. Por outro lado, em nosso conjunto de dados de acesso aberto disponível digitalmente, 27,4% das espécies avaliadas não apresentavam registros automatizados, e 13,9% estavam associadas a apenas uma publicação. Embora esses números reflitam a disponibilidade de literatura acessível — e não necessariamente uma ausência absoluta de conhecimento —, eles evidenciam uma desigualdade substancial na oferta de literatura científica de acesso aberto. Geograficamente, a pesquisa permanece fortemente concentrada na Mata Atlântica, deixando ecossistemas como o Pampa com o menor volume absoluto de publicações (27 trabalhos). Esses resultados demonstram que limitações práticas, a viabilidade de estudo e o histórico de pesquisas podem exercer maior influência do que as necessidades de conservação, concentrando a visibilidade em táxons e regiões já consolidados. Reconhecer essas assimetrias oferece lições valiosas para futuras agendas científicas: ao redirecionar ativamente recursos financeiros e capacidades para espécies e biomas negligenciados, a comunidade científica pode assegurar que as políticas de conservação sejam fundamentadas em uma base de evidências verdadeiramente representativa.