Gabriel Arthur Gomes Cavalcante
Impacto da pandemia de Covid-19 nas internações e mortalidade por doenças cardiovasculares no Brasil (2020-2023)
Resumo
Introdução: As doenças cardiovasculares representam a principal causa de morbimortalidade no mundo e no Brasil, sendo responsáveis por elevado número de internações, incapacidades e óbitos, especialmente por infarto agudo do miocárdio (IAM) e acidente vascular cerebral (AVC). A pandemia de COVID-19 provocou profundas alterações na organização dos sistemas de saúde, impactando o acesso aos serviços, a continuidade do cuidado e o manejo das doenças crônicas. Medidas como distanciamento social, sobrecarga hospitalar, adiamento de procedimentos e receio da população em buscar atendimento contribuíram para mudanças importantes nas taxas de internação e mortalidade cardiovascular. Apesar da relevância do tema, ainda há lacunas na literatura nacional acerca da magnitude e da distribuição dos impactos da pandemia sobre IAM e AVC no território brasileiro. Objetivo: Avaliar o impacto da pandemia de COVID-19 nas taxas de internação hospitalar e mortalidade por infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral no Brasil, no período de 2020 a 2023, em comparação ao período pré-pandêmico (2015–2019). Métodos: Trata-se de um estudo ecológico, de base populacional, com abordagem temporal, espacial e espaço-temporal, utilizando dados secundários provenientes do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH-SUS) e do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Foram analisadas as taxas de internação e mortalidade por IAM e AVC segundo sexo, faixa etária, regiões e unidades federativas brasileiras. A análise temporal foi realizada por meio de regressão Joinpoint, com cálculo das variações percentuais anuais e médias anuais, enquanto a análise espacial foi conduzida através de Sistemas de Informações Geográficas e elaboração de mapas temáticos. Também foi empregado o cálculo da variação percentual (P-score) para comparação entre valores observados e esperados durante os anos da pandemia. Resultados: Para o AVC, observou-se redução das internações (-1,1%) e da mortalidade (-2,3%) em 2020, seguida de aumento progressivo, com pico em 2022 (+15,4% nas internações e +6,4% na mortalidade). As internações apresentaram tendência crescente (AAPC = 3,3%; p < 0,001), especialmente na região Norte. Para o IAM, verificou-se aumento das internações em todos os anos da pandemia (+13,4% em 2020; +21,2% em 2021; +36,9% em 2022; +30,9% em 2023), enquanto os óbitos reduziram em 2020 (-3,0%) e aumentaram em 2021 (+2,2%) e 2022 (+4,6%). As internações por IAM apresentaram tendência crescente no Brasil (VPMA = 6,3%; p<0,05), com maior incremento nas regiões Centro-Oeste (VPMA = 11,1%; p < 0,05) e Norte (VPMA = 7,3%; p < 0,05). As análises espaciais evidenciaram importantes desigualdades regionais, com maior impacto nas regiões Norte e Centro-Oeste para ambos os desfechos. Conclusão: A pandemia de COVID-19 impactou significativamente nas internações e na mortalidade por doenças cardiovasculares no Brasil, modificando tendências históricas e ampliando desigualdades regionais e populacionais. Os resultados reforçam a necessidade de fortalecimento da rede de atenção cardiovascular, da vigilância epidemiológica e da implementação de políticas públicas voltadas à prevenção, ao controle dos fatores de risco e à manutenção da assistência às doenças crônicas em contextos de crise sanitária.